Ele era um cara perfeitamente normal.
Fazia coisas normais, como todo mundo. Só se relacionava com pessoas normais, como ele, não porque conscientemente excluía os outros tipo de pessoas, nem porque se preocupava que a convivência fora do normal o anormalizaria, apenas se agrupava ás pessoas normais, porque era a coisa normal a se fazer. Sem pensar demais no assunto, sem se preocupar em formular teorias, porque isso não era coisa de gente normal, e ele era. Muito.
Acordava no horário normal. Aquele, você sabe qual. Nem tão cedo quanto os ínsones, que anormalmente, se reviram na cama a noite toda sem conseguir dormir, muito perdidos em seus pensamentos anormais, declarando a derrota e se levantando ao primeiro vestígio de sol; nem tão tarde quanto os que desafiam, aparentemente por opção, todas as leis da normalidade trocando o dia pela noite. Não, ele acordava no horário normal, para fazer suas coisas normais no tempo certo, normal, de forma que o dia seguisse normal, como deveria ser. E todos os dias seguiam, cada um muito parecido com o anterior, porque é assim que acontece normalmente. E vale lembrar que ele não acordava de bom humor, como essas pessoas que distribuem sorrisos anormais no comecinho da manhã, e nem rabugento como essas outras pessoas que se incomodam com as que distribuem sorrisos. Ele acordava num humor perfeitamente normal, dava o seu "bom dia", sem sorrisos, como normalmente as pessoas davam.
Ele não odiava as segundas-feiras, como grande parte das pessoas – com quem ele não se relacionava, visto que não eram pessoas normais – odeiam. Talvez porque é um dia normal, como todos os outros, cada um muito parecido com o anterior. Não via muito sentido em prolongar o fim de semana, que também era sempre normal, a menos que se tratasse de um feriado, o que torna a situação muito mais lógica. Ou reclamar da volta ao trabalho, que se tão comprovadamente enobrece o homem, não tem porque ser evitado. Afinal, que tipo de pessoa anormal recusaria uma oportunidade tão simples de ser 'enobrecida'? Ele não pensava muito sobre as variações de 'enobrecer' também, porque era um verbo muito estranho, embora perfeitamente normal.
Um desses dias – sim, um desses que deveria ser muito parecido com o anterior, mas que anormalmente não foi –, as pessoas em volta dele começaram a mudar, e ele, que não costumava questionar demais como algumas pessoas anormalmente questionam, nem entendeu o porquê. Viu que todo mundo estava agindo diferente do normal, é claro, e se tinha um cara apto a perceber isso, era ele.
Subitamente, todo mundo tinha decidido que devia se diferenciar o máximo possível, como se ser normal fosse uma falha extrema de caráter, um pecado mortal, a humilhação definitiva. E o mais engraçado é que, nessa cruzada pessoal pra se diferenciar, as pessoas se tornaram mais iguais do que nunca, o que não era muito diferente de antes, mas definitivamente não era normal. E ele, que só se relacionava com pessoas normais, não por discriminação consciente, mas por ser o normal a fazer, percebeu, ao ficar sozinho com a sua normalidade, um sentimento que provavelmente sempre esteve ali, mas que era bem mais palpável agora.
Tédio. Crescente, devastador. Não era necessariamente bom, mas de alguma forma o confortou. O confortou porque sabia que não era, de forma alguma, uma sensação exclusiva dele. Se fosse o único a ser acometido por aquele tédio, ou por qualquer outra coisa que fosse só dele, até então a última pessoa normal no mundo, certamente se desesperaria. Ainda bem que não. Era um tédio daqueles que atingia a todos. Um tédio perfeitamente normal.
E ele continuava sendo um cara perfeitamente normal. Entediado, entendiante, mas perfeitamente normal.