domingo, 21 de julho de 2013

Como se nada tivesse acontecido


Às vezes é melhor agir assim mesmo.

Como se o mundo não tivesse dado voltas de parque de diversão, injetando adrenalina e provocando os mais diversos gritos, do êxtase ao pavor, seguidos da tontura e do mal-estar ou da simples vontade de girar de novo.

Como se os dias não tivessem mudado de cor e as coisas de sabor, e as cores não correspondessem mais aos sabores que você estava acostumado.

Como se a chuva não tivesse caído e as gotas não tivessem sequer chegado na terra que tinham que regar ou nas almas que tinham que lavar ou nas nossas cabeças, de uma forma que mais pareceriam agulhas.

Como se o tempo fosse um botãozinho que se liga ou desliga, ou permanece em stand-by, com uma luz que sinaliza que ele está ali, se alimentando, mas que só vai desempenhar a sua função quando você decidir, gastando o mínimo de energia possível enquanto essa decisão não chega.

Às vezes não compensa discorrer sobre o mundo, os dias, a chuva e o tempo, porque é tudo muito particular, mesmo que aconteça pra todos, ou melhor, que não aconteça pra todos. Não da maneira que aconteceu ou não aconteceu pra você.

É por isso que quando se reencontra aquela pessoa que desapareceu e que você desapareceu dela, ou quando se retoma aquele projeto que você deixou jogado na gaveta no início do ano, ou quando você se pega pensando em coisas que não pensava e fazendo as coisas que já não fazia mais, sabe-se lá por que motivos, às vezes é melhor agir como se nada tivesse acontecido. Porque às vezes não aconteceu nada mesmo. Foi só a vida. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Um texto normal


Ele era um cara perfeitamente normal.

Fazia coisas normais, como todo mundo. Só se relacionava com pessoas normais, como ele, não porque conscientemente excluía os outros tipo de pessoas, nem porque se preocupava que a convivência fora do normal o anormalizaria, apenas se agrupava ás pessoas normais, porque era a coisa normal a se fazer. Sem pensar demais no assunto, sem se preocupar em formular teorias, porque isso não era coisa de gente normal, e ele era. Muito.

Acordava no horário normal. Aquele, você sabe qual. Nem tão cedo quanto os ínsones, que anormalmente, se reviram na cama a noite toda sem conseguir dormir, muito perdidos em seus pensamentos anormais, declarando a derrota e se levantando ao primeiro vestígio de sol; nem tão tarde quanto os que desafiam, aparentemente por opção, todas as leis da normalidade trocando o dia pela noite. Não, ele acordava no horário normal, para fazer suas coisas normais no tempo certo, normal, de forma que o dia seguisse normal, como deveria ser. E todos os dias seguiam, cada um muito parecido com o anterior, porque é assim que acontece normalmente. E vale lembrar que ele não acordava de bom humor, como essas pessoas que distribuem sorrisos anormais no comecinho da manhã, e nem rabugento como essas outras pessoas que se incomodam com as que distribuem sorrisos. Ele acordava num humor perfeitamente normal, dava o seu "bom dia", sem sorrisos, como normalmente as pessoas davam.

Ele não odiava as segundas-feiras, como grande parte das pessoas – com quem ele não se relacionava, visto que não eram pessoas normais – odeiam. Talvez porque é um dia normal, como todos os outros, cada um muito parecido com o anterior. Não via muito sentido em prolongar o fim de semana, que também era sempre normal, a menos que se tratasse de um feriado, o que torna a situação muito mais lógica. Ou reclamar da volta ao trabalho, que se tão comprovadamente enobrece o homem, não tem porque ser evitado. Afinal, que tipo de pessoa anormal recusaria uma oportunidade tão simples de ser 'enobrecida'? Ele não pensava muito sobre as variações de 'enobrecer' também, porque era um verbo muito estranho, embora perfeitamente normal.

Um desses dias – sim, um desses que deveria ser muito parecido com o anterior, mas que anormalmente não foi –, as pessoas em volta dele começaram a mudar, e ele, que não costumava questionar demais como algumas pessoas anormalmente questionam, nem entendeu o porquê. Viu que todo mundo estava agindo diferente do normal, é claro, e se tinha um cara apto a perceber isso, era ele.

Subitamente, todo mundo tinha decidido que devia se diferenciar o máximo possível, como se ser normal fosse uma falha extrema de caráter, um pecado mortal, a humilhação definitiva. E o mais engraçado é que, nessa cruzada pessoal pra se diferenciar, as pessoas se tornaram mais iguais do que nunca, o que não era muito diferente de antes, mas definitivamente não era normal. E ele, que só se relacionava com pessoas normais, não por discriminação consciente, mas por ser o normal a fazer, percebeu, ao ficar sozinho com a sua normalidade, um sentimento que provavelmente sempre esteve ali, mas que era bem mais palpável agora.

Tédio. Crescente, devastador. Não era necessariamente bom, mas de alguma forma o confortou. O confortou porque sabia que não era, de forma alguma, uma sensação exclusiva dele. Se fosse o único a ser acometido por aquele tédio, ou por qualquer outra coisa que fosse só dele, até então a última pessoa normal no mundo, certamente se desesperaria. Ainda bem que não. Era um tédio daqueles que atingia a todos. Um tédio perfeitamente normal.

E ele continuava sendo um cara perfeitamente normal. Entediado, entendiante, mas perfeitamente normal.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sobre perspectiva, perspicácia e superstição


Perspectiva é um negócio complicado, tanto de se ter quanto de se ler. Poucas foram as vezes em que consegui pronunciar a palavra assim, naturalmente, sem dar uma forçada bem paulista no R pra juntá-lo naturalmente ao S, ou sem soar o mais artificial possível. Nunca entendi o porquê e, aposto que sob a perspectiva de outros, pronunciar isso aí é a coisa mais simples do mundo.

Aliás, esse negócio de cada um ter uma perspectiva é ainda mais complicado do que o próprio conceito de perspectiva. Complicado principalmente porque, a menos que você tenha uma perspectiva muito parecida, é difícil aceitar a perspectiva alheia. Mas voltemos à pronúncia: acho tão complicada quanto perspicácia, que é outra coisa que é difícil de se ter sem alguma perspectiva.

Completando a trinca de palavrinhas que me enrolam a língua, vem superstição, que a maioria das pessoas (eu incluso) associa a situações mais bobinhas, tipo não passar embaixo de escadas, achar que quebrar espelho traz azar e acreditar em horóscopo (me declaro culpado), mas que é um conceito tão amplo quanto perspectiva e perspicácia, e que por contrariar a racionalidade, não é muito associado a pessoas perspicazes e nem com muita perspectiva.

Perspectiva confunde na questão gráfica também, motivo (não único, existem muitos outros) pelo qual nunca consegui desenhar nada direito, com perspectiva ou sem. Sinal de que talvez eu não tenha muita perspicácia, o que não é o fim do mundo, já que tenho problemas até pra pronunciar a palavra direito. Aliás, é engraçado como eu tinha outro texto pronto pra colocar aqui no blog e, decidido a não postar dois textos seguidos com jogos de palavras, deixei pra depois e comecei a escrever esse aqui, jurando que ele seria completamente diferente, e eis que divaguei sobre palavras de novo. Acho que vou parar de encanar tanto sobre me repetir, porque não tem superstição nenhuma me proibindo disso, e me podar quanto a brincar com as palavras acaba com toda a perspectiva que me resta.